A Reurb executada pelo poder público, do diagnóstico ao pós-registro.
A Lei nº 13.465/2017 descreve o procedimento em sete fases amplas. Esta metodologia as traduz em dezoito marcos operacionais de prefeitura — cada um com produtos, fundamento legal, equipe e papel do Poder Público — para dar ao gestor municipal o que a lei não dá: a ordem de execução.

O que todo gestor precisa saber antes de começar
Seis conclusões que desfazem os mal-entendidos mais caros da Reurb municipal.
As três funções do Poder Público
Nem tudo pode ser terceirizado — e nem tudo precisa ser feito pela prefeitura. A divisão correta é por função.
Autoridade administrativa
Receber e autuar; verificar legitimidade; classificar S ou E; instaurar ou indeferir fundamentadamente; controlar buscas e notificações; decidir impugnações; aprovar; sanear e decidir; expedir a CRF; fiscalizar compromissos; incorporar o núcleo à cidade.
Promotor e executor técnico
Topografia, selagem, cadastro social, estudos ambientais e de risco, projeto, memoriais, orçamento e obras podem ser executados por equipe própria, consórcios, contratados ou legitimados — com escopo, padrão, autoria técnica e critérios de aceite definidos pelo Município. Peças privadas usadas na CRF exigem anuência dos autores.
Gestor urbano pós-registro
Depois do registro: atualizar cadastro territorial e fiscal, integrar áreas públicas, levar serviços, acompanhar obras e compromissos, atender listas complementares e evitar nova informalidade. A Reurb só entrega seu resultado quando o núcleo passa a ser administrado como parte da cidade.
A espinha dorsal legal — e os 18 marcos que a executam
Estas são as sete fases do art. 28 da Lei nº 13.465/2017. Cada uma abre, na prática municipal, os marcos abaixo — clique para ver produtos, fundamento, equipe e o papel do Poder Público em cada um. Metodologia de gestão, não ordem legal rígida: várias frentes correm em paralelo, mas os portões não se invertem.
01Processo administrativo▸
Finalidade. Criar o processo-mãe, físico ou eletrônico, que preserve a memória decisória e conecte todos os produtos técnicos, sociais, ambientais, jurídicos e registrais.
Produtos. Autuação; identificação do núcleo e do legitimado; índice documental; despacho de distribuição; designação do gestor e da equipe; matriz de responsabilidades; controle de versões; cronograma; registro de pendências, decisões, notificações e prazos. Na iniciativa de ofício, a manifestação interna do Município funciona como ato de provocação do procedimento.
Equipe multidisciplinar. Gestor de processo; procurador ou assessor jurídico; servidor de protocolo; arquivista ou gestão documental; analista de dados/GIS; representante de urbanismo e habitação; controle interno, conforme a governança local.
02Diagnóstico técnico, social e formal▸
Finalidade. Determinar se existe núcleo urbano informal regularizável, qual sua dimensão, quais restrições e conflitos existem e qual estratégia técnica, social, jurídica, ambiental e financeira é viável.
Produtos. Relatório técnico; perímetro provisório; levantamento preliminar; relatório de risco; relatório ambiental; busca processual judicial; pesquisa da legislação urbanística e dos atos de congelamento; identificação de ações judiciais; visita e diagnóstico social.
Equipe multidisciplinar. Arquiteto e urbanista; engenheiro civil, agrimensor ou cartógrafo; profissional ambiental legalmente habilitado; geólogo ou geotécnico quando houver risco; assistente social; advogado ou procurador; analista registral; profissional de orçamento e planejamento.
03Instauração e classificação da REURB▸
Finalidade. Converter a demanda em procedimento formal e classificar o núcleo como REURB-S, REURB-E ou, se tecnicamente adequado, núcleo misto.
Produtos. Decisão de deferimento e instauração; ato de classificação; publicação oficial; ou indeferimento fundamentado, com indicação das medidas para reformulação e reavaliação.
Equipe multidisciplinar. Autoridade municipal competente; procuradoria; assistência social; cadastro socioeconômico; urbanismo/habitação; planejamento e orçamento; gestão processual.
04Busca registral e dominial▸
Finalidade. Identificar matrículas, transcrições, proprietários, cadeias dominiais, projetos registrados, áreas sem origem identificada, ônus, ações e circunscrições competentes.
Produtos. Certidões de matrícula e transcrição; plantas e projetos arquivados; cadeia dominial; quadro de imóveis atingidos; mapa de sobreposição; relatório de titularidade e de conflitos registrais.
Equipe multidisciplinar. Advogado com atuação fundiária/registral; oficial ou preposto do Registro de Imóveis como interlocutor externo; arquiteto, engenheiro agrimensor ou cartógrafo; analista GIS; servidor do patrimônio público.
05Definição do perímetro da REURB▸
Finalidade. Fixar a poligonal que será processada, permitindo saber quais imóveis, confrontantes, ocupações, áreas públicas e restrições serão alcançados.
Produtos. Planta do perímetro; memorial preliminar; sobreposição com projeto aprovado e registros; indicação de matrículas/transcrições, áreas e proprietários; quadro de confrontantes; justificativa para execução total, parcial ou por etapas.
Equipe multidisciplinar. Arquiteto e urbanista; engenheiro agrimensor/cartógrafo ou outro profissional habilitado; analista GIS; advogado registral; patrimônio municipal; ambiental e geotécnico quando houver restrições.
06Cadastro físico da ocupação e selagem▸
Finalidade. Ligar cada unidade física a seus ocupantes, documentos, usos, edificações e situação social, produzindo uma base auditável para projeto, titulação e CRF.
Produtos. Cronograma e agendamento; ficha de selagem; cartão de identificação; croqui e fotos do lote; planilha de selagem; relação de documentos faltantes; carta convocatória; declaração de único imóvel, somente quando pertinente ao instrumento jurídico; revisão dos cadastros e vistoria de campo.
Equipe multidisciplinar. Assistente social; cadastradores treinados; arquiteto; engenheiro ou técnico de campo habilitado; advogado de titulação; analista de dados; agente comunitário; proteção de dados/controle de acesso.
07Notificações, impugnações e consenso▸
Finalidade. Assegurar contraditório aos titulares de domínio, responsáveis pela implantação, confinantes e terceiros interessados.
Produtos. Notificações postais com aviso de recebimento; editais; comprovantes; planilha de prazos; certidões de silêncio; impugnações; decisões fundamentadas; recursos; termos de acordo e mediação; atualização do projeto quando acolhida oposição.
Equipe multidisciplinar. Procurador ou advogado; gestor processual; servidor de notificações; arquiteto/agrimensor para explicar a poligonal; mediador; assistente social; comunicação pública.
08LEPAC: levantamento planialtimétrico e cadastral▸
Finalidade. Produzir a base geométrica georreferenciada que representa o núcleo existente e sustenta todas as plantas, memoriais e matrículas futuras.
Produtos. Unidades e lotes; construções; curvas de nível; sistema viário; áreas públicas; APP; linhas de transmissão; faixas não edificáveis; acidentes geográficos; pontos e coordenadas; georreferenciamento; arquivos digitais e responsabilidade técnica.
Equipe multidisciplinar. Engenheiro agrimensor, cartógrafo ou profissional com atribuição compatível; equipe de topografia; arquiteto e urbanista; engenheiro civil; analista GIS; ambiental; concessionárias, quando houver redes e faixas técnicas.
09Projeto urbanístico▸
Finalidade. Converter a realidade levantada em parcelamento regularizável, com unidades, vias, áreas públicas, restrições, infraestrutura e medidas de adequação.
Produtos. Geometria de lotes; quadras; vias e nomes; áreas públicas; APP; manchas de construção; linhas de transmissão e faixas não edificáveis; pontos de perímetro e lotes; azimutes; matrículas atingidas; quadro de áreas; soluções de mobilidade, acessibilidade, infraestrutura e relocações.
Equipe multidisciplinar. Arquiteto e urbanista como coordenador urbanístico; engenharia civil, agrimensura/cartografia, mobilidade e saneamento; profissional ambiental; acessibilidade; GIS; patrimônio e cadastro municipal; jurídico.
10Croqui de anuência e atendimento aos interessados▸
Finalidade. Validar a compreensão dos ocupantes sobre limites e dados, colher informações e tratar divergências antes da consolidação dos memoriais e títulos.
Produtos. Croquis de anuência; plantões de atendimento; grupos de entrega; notificações e convocações; planilha de controle; registro de divergências; verificação cadastral e fiscal.
Equipe multidisciplinar. Assistente social; atendimento comunitário; arquiteto/agrimensor; jurídico; cadastro imobiliário; fazenda municipal; mediador; gestão de dados.
11Memoriais descritivos▸
Finalidade. Traduzir o projeto gráfico em descrições técnicas registráveis do perímetro, lotes, vias e áreas públicas.
Produtos. Memorial do núcleo; memoriais das unidades; sistema viário; áreas públicas; APP; linhas de transmissão; faixas não edificáveis; equipamentos urbanos; quadros de coordenadas e áreas.
Equipe multidisciplinar. Arquiteto e urbanista; engenheiro agrimensor/cartógrafo ou profissional habilitado; engenharia civil; GIS; revisor técnico; jurídico e especialista registral para o pré-voo.
12Plano da REURB▸
Finalidade. Integrar as soluções urbanísticas, ambientais, de risco, infraestrutura, reassentamento e uso de áreas públicas em uma estratégia executável.
Produtos. Tratamento de lotes em faixa não edificável; estudo e medidas de risco; indicação de remoção ou demolição; localização e destinação de áreas públicas; áreas verdes e medidas protetivas; medidas de adequação; plano de reassentamento; dados consolidados do parcelamento.
Equipe multidisciplinar. Coordenação de urbanismo; engenharia civil e saneamento; ambiental; geologia/geotecnia; habitação; assistência social; defesa civil; patrimônio; jurídico; planejamento e orçamento; concessionárias.
13Particularidades do núcleo, cronograma e compromissos▸
Finalidade. Transformar as soluções do plano em obrigações, responsáveis, custos e prazos verificáveis.
Produtos. Cronograma físico de serviços e obras; orçamento; compensações urbanísticas e ambientais; termo de compromisso; matriz de responsáveis; plano de infraestrutura; garantias e condições de acompanhamento.
Equipe multidisciplinar. Engenheiros de infraestrutura e orçamento; arquitetura; ambiental; jurídico; planejamento, finanças e licitações; concessionárias; controle interno; gestor do contrato/termo.
14Comissão de aprovação e saneamento final▸
Finalidade. Realizar revisão integrada, corrigir pendências e preparar a decisão da autoridade competente.
Produtos. Checklists; pareceres jurídico, urbanístico, ambiental, social e de infraestrutura; relatório de saneamento; ata ou termo de aprovação da comissão; versão final do projeto; minuta da decisão e da CRF.
Equipe multidisciplinar. Comissão com jurídico, urbanismo, engenharia, meio ambiente, habitação/social, cadastro, patrimônio, infraestrutura e, quando pertinente, defesa civil e fazenda. Autoridade competente decide.
15Titulação, decisão e preparação da CRF▸
Finalidade. Definir o direito real adequado a cada unidade, homologar beneficiários e materializar a decisão administrativa.
Produtos. Homologação ou indeferimento individual fundamentado; lista qualificada de ocupantes; indicação de unidade e direito real; títulos ou ato único; CRF pré-preenchida; planilha técnica; verificação final da selagem; projeto sobre ortoimagem; numeração oficial; comprovantes de anuência/entrega; organização das pastas individuais.
Equipe multidisciplinar. Jurídico/titulação; assistência social; cadastro e dados; arquitetura/engenharia para vinculação lote-ocupante; registro civil/documentação; autoridade competente; especialista registral.
16Numeração oficial, cadastro territorial e IPTU▸
Finalidade. Preparar a incorporação cadastral do núcleo, das unidades, vias e áreas públicas à administração municipal.
Produtos. Numeração predial e cadastral; cadastro provisório; minuta de ato sobre logradouros, quando necessário; fichas cadastrais; base GIS; criação de inscrições; integração com finanças, obras e serviços.
Equipe multidisciplinar. Cadastro imobiliário; fazenda/tributação; GIS e tecnologia; urbanismo; obras e postura; jurídico; engenharia e arquitetura; patrimônio.
17Registro da CRF▸
Finalidade. Levar a CRF e o projeto aprovado ao Registro de Imóveis, superar exigências legítimas e obter o registro do núcleo, das unidades, áreas públicas e direitos reais.
Produtos. Requerimento; prenotação; CRF e anexos; projeto de perímetro e urbanístico; memoriais; termo de compromisso; certidão de infraestrutura; listagem dos ocupantes; atos de designação dos técnicos; publicação; respostas a notas devolutivas; registro e novas matrículas.
Equipe multidisciplinar. Jurídico registral; gestor do processo; arquitetura, engenharia e GIS; titulação; oficial e equipe do Registro de Imóveis; autoridade responsável pela CRF.
18Pós-registro e gestão do núcleo regularizado▸
Finalidade. Fazer o registro produzir transformação urbana e administrativa duradoura.
Produtos. Cópias e controle das novas matrículas; atualização de selagem, base GIS, cadastro e IPTU; incorporação patrimonial de vias e áreas públicas; comunicação às secretarias; acompanhamento de obras e termos; conexões de serviços; listas complementares; entrega de matrículas; relatório de encerramento e monitoramento.
Equipe multidisciplinar. Cadastro e fazenda; patrimônio; obras, saneamento e concessionárias; habitação e assistência social; urbanismo; meio ambiente; jurídico; GIS/TI; comunicação e atendimento; controle de compromissos.
Quem promove, quem executa, quem paga — os 5 cenários
A pergunta que trava a Reurb municipal tem resposta na lei: art. 33, § 1º, da Lei nº 13.465/2017, na redação vigente da Lei nº 14.118/2021.
Iniciada de ofício e executada pelo Município
O Município, como legitimado, seleciona o núcleo, formaliza a iniciativa, diagnostica, instaura, classifica, executa ou contrata os produtos, custeia o projeto e a infraestrutura necessária, aprova, expede a CRF e acompanha o registro. É o cenário em que a prefeitura acumula promoção, execução material e autoridade decisória. Por governança, convém separar internamente produção e aprovação.
Requerida por moradores, assumida para execução pública
O protocolo privado não impede execução pública. Se o núcleo for predominantemente de baixa renda e classificado como S, o Município pode incluí-lo em programa, orçamento e cronograma, executar com equipe própria ou contratar. Na realidade jurídica atual, a responsabilidade pública do art. 33, §1º, I, existe independentemente de a origem ter sido de ofício ou a requerimento.
Requerida e tecnicamente custeada pelos legitimados
Moradores, associação, proprietário, Defensoria ou outro legitimado podem custear levantamentos, projetos, documentos e, por opção, obras essenciais. O Município recebe, confere, promove o contraditório, exige correções, aprova, decide e emite a CRF. Deve formalizar autoria, anuência de uso, escopo, padrão de entrega e responsabilidades. A modalidade continua S e as gratuidades permanecem.
Requerida por população não enquadrada como baixa renda
Beneficiários ou requerentes privados contratam e custeiam a regularização. O Município não precisa produzir o projeto, mas deve manter equipe apta a analisar. Classifica, instaura, busca ou confere a situação dominial, notifica, decide impugnações, aprova, atribui responsabilidades por infraestrutura e compensações, expede a CRF e acompanha o registro.
Em bem público, com interesse público
O Município pode elaborar e custear projeto e infraestrutura, com cobrança posterior aos beneficiários, nos termos do art. 33, §1º, III, da Lei. A alienação ou constituição de direito real sobre bem público exige a solução patrimonial adequada e, na REURB-E, pode envolver pagamento do justo valor, conforme o art. 16.
Perguntas que toda prefeitura faz — respondidas na lei
Primeiro o que destrava, depois a munição, e só então os limites. Todos os fundamentos conferidos no texto compilado vigente.
O que você não precisa para começar
Três obstáculos que parecem exigência e não são. O protocolo pode andar hoje.
NÃOPara protocolar um pedido de Reurb no Município, precisa existir lei municipal regulamentando a Reurb?▸
A resposta está textual na lei federal: "Não impedirá a Reurb, na forma estabelecida nesta Lei, a inexistência de lei municipal específica que trate de medidas ou posturas de interesse local aplicáveis a projetos de regularização fundiária urbana". A Lei nº 13.465/2017 e o Decreto nº 9.310/2018 são autoaplicáveis. A norma municipal pode somar — parâmetros urbanísticos próprios, critério local de baixa renda, procedimento interno —, mas nunca condicionar a existência do direito de requerer.
NÃOPrecisa haver algum ato administrativo prévio — a "instauração" — para que o legitimado possa protocolar o requerimento?▸
A ordem é inversa: o requerimento do legitimado é o que provoca o Município; a instauração é a decisão que vem depois do protocolo. Recebido o requerimento, o Município tem até 180 dias para classificar a modalidade e instaurar, ou indeferir fundamentadamente — e, se ficar inerte, a modalidade indicada pelo legitimado fica automaticamente fixada e o procedimento prossegue, sem prejuízo de revisão posterior mediante estudo técnico.
NÃOPrecisa haver comissão de Reurb formada por servidores para analisar e processar a Reurb no Município?▸
A lei federal atribui as competências ao Município como ente — classificar caso a caso, processar, analisar e aprovar os projetos e emitir a CRF — sem impor nenhum órgão colegiado específico. A comissão é boa prática de governança e pode ser criada por ato municipal, com competências definidas localmente. O que ela não pode é virar pré-condição: sua inexistência não suspende o dever de processar nem o prazo de 180 dias.
O que a lei já resolve para você
Munição normativa para levar ao cartório, ao prefeito e ao órgão ambiental.
ROL AMPLOQuem pode requerer a Reurb?▸
União, Estados, Distrito Federal e Municípios (diretamente ou pela administração indireta); os beneficiários, individual ou coletivamente — inclusive por cooperativas habitacionais, associações de moradores, fundações, organizações sociais, OSCIPs e associações civis do setor; os proprietários, loteadores ou incorporadores; a Defensoria Pública, em nome dos hipossuficientes; e o Ministério Público. E os legitimados podem promover todos os atos necessários, inclusive requerer os atos de registro.
TRÊS REGIMESO núcleo está em terra da União ou do Estado. A prefeitura ainda é quem conduz?▸
A regra geral é municipal: classificar, processar e emitir a CRF competem ao Município onde o núcleo está. Mas o art. 30 tem dois parágrafos que quase ninguém lê. Na Reurb requerida pela União ou pelos Estados, a classificação da modalidade é do ente que instaurou (§ 1º). E, desde a Lei nº 14.620/2023, para as terras de sua propriedade, os órgãos e entidades de qualquer ente ficam autorizados a instaurar, processar e aprovar a própria Reurb (§ 4º). Em terra pública de outro ente, o primeiro passo é a coordenação institucional: definir expressamente quem classifica, quem aprova e quem emite os atos finais — quem não lê o § 4º bate na porta errada.
SIMNúcleo informal em área qualificada como rural pode ser objeto de Reurb?▸
O conceito legal de núcleo urbano alcança o assentamento com uso e características urbanas "ainda que situado em área qualificada ou inscrita como rural", desde que as unidades tenham área inferior à fração mínima de parcelamento. Depois da Reurb, o Município pode cadastrar as novas unidades para fins de tributos municipais.
SIM, COM CONDIÇÕESPode Reurb em área de APP? E em unidade de conservação?▸
A lei admite expressamente Reurb em núcleo situado, total ou parcialmente, em APP, em unidade de conservação de uso sustentável ou em área de proteção de mananciais — tornando obrigatórios os estudos técnicos dos arts. 64 e 65 do Código Florestal, que devem demonstrar a melhoria das condições ambientais em relação à situação anterior. Atenção às fronteiras: na Reurb-E, o art. 65 só alcança APP não identificada como área de risco; e a lei contempla apenas UC de uso sustentável — regularização dentro de unidade de proteção integral não tem amparo no regime da Reurb.
NÃOO cartório pode exigir certidões negativas de tributos para registrar a CRF?▸
Dispositivo literal, repetido na lei e no decreto: "O registro da CRF dispensa a comprovação do pagamento de tributos ou penalidades tributárias de responsabilidade dos legitimados." Débitos podem ser mapeados para o cadastro municipal — mas não condicionam o registro.
PRAZOS LEGAISProtocolada a CRF no cartório, quanto tempo o registro pode levar?▸
Recebida a CRF, o oficial prenota, autua e, em 15 dias, emite a nota de exigência ou pratica os atos tendentes ao registro. O procedimento registral deve ser concluído em 60 dias, prorrogáveis por até igual período mediante justificativa fundamentada. O Município não deve considerar o trabalho encerrado no protocolo: acompanhar exigências e prazos faz parte da função pública.
O RASTROO que protege o gestor quando o processo atrasa?▸
O atraso, por si, não é ilícito — a própria lei já previu a consequência processual objetiva da demora: passado o prazo de classificação, a modalidade indicada pelo legitimado fixa-se automaticamente e o procedimento prossegue, sem transformar a inércia em falta pessoal do servidor. O que expõe o gestor é outra coisa: o atraso sem rastro. Processo sem autuação, decisão sem fundamento escrito, prazo sem registro, pendência que ninguém documentou. A proteção é a governança do processo-mãe: autuação formal, responsável definido, despachos motivados, notificações e prazos documentados. Atraso se explica; atraso sem rastro, não.
O que você não pode exigir
Quatro barreiras que aparecem na prática e não têm amparo. Evitá-las protege o Município — inclusive de correr contra os próprios prazos.
NÃOO Prefeito pode determinar que só "empresas credenciadas" executem Reurb no Município?▸
Não como condição para receber e processar requerimentos. O que a lei federal exige é profissional legalmente habilitado, com ART ou RRT (dispensada a anotação quando o responsável técnico for servidor ou empregado público — a habilitação permanece). Um cadastro municipal voluntário para orientar o munícipe é possível; transformá-lo em barreira de admissibilidade cria exigência sem amparo na Lei nº 13.465/2017 e esbarra na liberdade de exercício profissional (CF/88, art. 5º, XIII). Para as execuções contratadas pela própria prefeitura vale a regra geral: licitação, não reserva de mercado.
NÃOPode o Poder Público afirmar que no Município não se faz Reurb em núcleos consolidados após 22/12/2016?▸
O marco de 22 de dezembro de 2016 limita um instrumento, não a Reurb: "A Reurb promovida mediante legitimação fundiária somente poderá ser aplicada para os núcleos urbanos informais comprovadamente existentes… até 22 de dezembro de 2016". Núcleo consolidado depois dessa data continua regularizável — muda o título: legitimação de posse, CDRU, compra e venda, doação, usucapião e os demais instrumentos seguem disponíveis. Vedar a Reurb pela data é ler a exceção como se fosse a regra.
O QUE A LEI PREVÊQual o limite do Poder Público nas exigências de compensação ambiental? Pode compensação em pecúnia?▸
A lei diz o que pode ser exigido — e diz com verbos de fazer: implementar as medidas de mitigação e compensação apuradas no estudo técnico e celebrar termo de compromisso, com objeto, prazo e responsável (na Reurb-E, condição de aprovação). O parâmetro é um só: melhoria das condições ambientais em relação à situação anterior. Compensação em pecúnia não está lá — e não é que a lei proíba: é que ela não prevê, o que é diferente. Por isso a base teria de vir de outro lugar (lei local específica), e o ônus de exibi-la é de quem cobra. E a distinção que a prática confunde todo dia: a compensação da Reurb é mitigação de impacto, medida a medida, apurada no estudo — não é a contrapartida urbanística do parcelamento novo, que a Reurb não obriga a reproduzir.
TRÊS NÍVEISPode o Poder Público cobrar taxa do munícipe para analisar e processar requerimento de Reurb?▸
Comece pelo que a gratuidade legal é: custas e emolumentos notariais e registrais — é do cartório, não da prefeitura. Daí a resposta em três níveis. Na Reurb-E, taxa de análise instituída por lei municipal é juridicamente possível: o requerente já custeia a regularização. Na Reurb-S, é de defesa muito difícil: o custeio do projeto e da infraestrutura essencial é do próprio ente, e a modalidade pressupõe baixa renda. E em nenhuma das duas como condição de protocolo: a barreira na porta impediria de correr o prazo de 180 dias que a lei criou contra o próprio Município que a ergueu.
A equipe que a sua prefeitura precisa montar
Organograma de referência para estruturar por concurso, contratação, consórcio ou convênio.
Núcleo permanente
- Coordenação/gestão de processos e prazos
- Procuradoria ou assessoria jurídica fundiária e registral
- Arquitetura e urbanismo
- Engenharia civil, agrimensura/cartografia e topografia
- Assistência social e mobilização comunitária
- Cadastro territorial, GIS, tecnologia e gestão de dados
- Titulação e interlocução com o Registro de Imóveis
- Planejamento, orçamento, contratação e controle
Especialistas acionados conforme o núcleo
- Meio ambiente, biologia, engenharia ambiental ou florestal
- Geologia, geotecnia, hidrologia e defesa civil
- Saneamento, drenagem, energia, mobilidade e acessibilidade
- Patrimônio público, tributação e cadastro fiscal
- Mediação de conflitos, Defensoria, Ministério Público e órgãos gestores de unidades de conservação
- Concessionárias e permissionárias de serviços públicos
O caminho completo é de membro
As fases e os fundamentos são públicos — a lei é de todos. O que a experiência ensina em cada marco é o que o IBRF entrega ao assinante:
