Painéis da história urbana

Há uma frase nesta resenha que todo reurbeiro reconhece de imediato, e ela foi escrita nos anos 1970: Leonardo Benevolo já sublinhava "a distância existente entre a cidade concebida pelas normas e aquela efetivamente de fato edificada". Meio século depois, é exatamente esse vão que a Regularização Fundiária Urbana existe para fechar. A resenha de "História da cidade" é assinada por Heloisa Loureiro Escudeiro, coordenadora-adjunta do Núcleo de Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper.
Publicada na Itália em 1975 e no Brasil em 1997 pela Editora Perspectiva, com edição revista em 2019, a obra vai da Pré-História às cidades contemporâneas e é leitura obrigatória nos cursos de Arquitetura e Urbanismo. O método de Benevolo é o que interessa aqui: em vez de narrar uma sequência de acontecimentos, ele lê o ambiente construído como registro da própria sociedade. Ruas, edifícios, infraestruturas e espaços públicos viram evidências de como cada civilização se organizou — "uma muralha passa a escancarar relações de poder; um sistema de abastecimento evidencia capacidades técnicas; uma praça fala sobre modos de convivência".
O ponto mais útil para quem trabalha com núcleos urbanos informais é o da acumulação: as cidades raramente começam do zero. Elas guardam permanências, reinterpretam soluções anteriores e incorporam camadas ao longo do tempo — e mesmo as que se propuseram a ser um recomeço, como Brasília, seguem expressando os projetos políticos e econômicos da sua época. É a mesma lente que o diagnóstico fundiário exige: o núcleo que se vai regularizar não é um erro a corrigir, é uma camada da cidade que se consolidou por décadas e tem lógica própria — de ocupação, de circulação, de vizinhança.
Heloisa também aponta, com honestidade, o que a obra deixa de fora. A tradição europeia ocupa o centro do estudo, e as formas de organização territorial dos povos originários das Américas ficam em segundo plano — ausência que, como ela observa, salta aos olhos justamente porque o método do autor valoriza o acúmulo de camadas históricas.
O fecho é uma boa medida do ofício de qualquer um que mexa com território: "nenhuma rua, infraestrutura ou espaço público existe por acaso — todos condensam escolhas, conflitos, conhecimentos e modos de organização acumulados durante séculos". E as cidades que se constroem hoje serão, amanhã, documento da nossa época, revelando às próximas gerações o que decidimos preservar, transformar ou ignorar.
HISTÓRIA DA CIDADE, de Leonardo Benevolo. Tradução de Silvia Mazza, revisão da tradução de Anita Di Marco. Editora Perspectiva, 864 páginas.
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