O desenho urbano e as mudanças de paradigmas

O arquiteto colombiano Edgar Mazo passou onze dias no Brasil, a convite do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper e do Arq.Futuro, e o roteiro dele diz muito sobre onde o debate urbano está: Complexo da Maré, no Rio; Heliópolis, a maior favela de São Paulo; e a favela Jardim Novo Flamboyant, em Campinas. Diretor do escritório Connatural, de Medellín, Edgar é referência internacional em espaços públicos projetados para situações de crise climática e social.
A tese que ele trouxe muda o estatuto do parque urbano. Deixa de ser lugar de contemplação e passa a ser infraestrutura. "A gente não está tratando mais o parque urbano só com o olhar de contemplação e respiro em relação à vida urbana pós-industrial, mas como infraestruturas fundamentais para a adaptação climática nas cidades", resume Tomas Alvim, coordenador-geral do Insper Cidades. Na Festa Literária Internacional de Paraty, Edgar disse que a arquitetura se situa entre a água que vem do céu e a que corre pelo chão — e que o projeto precisa infiltrar, conduzir e desacelerar o escoamento.
No Rio, o workshop reuniu a Redes da Maré e o Instituto Manu em torno de um primeiro projeto para um território que acumula ilha de calor, inundação, violência e falta de espaço público. Em São Paulo, os convidados desenharam uma proposta para a Praça Edgar Hermelino Leite, no Distrito de Inovação da Vila Olímpia, e o arquiteto Roberto Loeb e o paisagista Rodrigo Oliveira apresentaram o trabalho em curso no Parque da Cidadania, em Heliópolis, com ideias trazidas por moradores. "Convidamos Edgar Mazo porque vivemos no Brasil e na Colômbia, países que estão entre os de maior biodiversidade do planeta", explica Juan Sebastián Bustamante Fernández, coordenador do Núcleo de Arquitetura e Cidade do Insper Cidades.
Dois pontos do método interessam de perto a quem executa Reurb. O primeiro é que, para Edgar, o projeto nasce enquanto se caminha e se ouve — ideia preconcebida atrapalha, e a obra é um processo de educação em que o operário deixa a sua marca. É a mesma disciplina do trabalho de campo que antecede qualquer bom diagnóstico fundiário. O segundo é o que a coordenadora-adjunta Heloisa Escudeiro destacou da palestra: a arquitetura por subtração. "É como se não fosse um processo de adicionar camadas, paredes, mas subtrair os elementos que estão sobrando, reorganizar o que já existe e reaproveitar os materiais presentes."
Vale a leitura pelo que ela ilumina do nosso lado do balcão. A Reurb resolve a insegurança da posse: dá matrícula, nome e endereço a quem já mora. O desenho urbano trata do que existe entre as casas — a água, a sombra, a praça, o caminho. São dois trabalhos distintos que acontecem nos mesmos territórios, e o título registrado rende muito mais quando o bairro que ele reconhece também foi pensado. Na sessão de perguntas, os alunos da pós-graduação em Urbanismo Social quiseram saber exatamente isto: como fazer processos assim caberem em licitações e contratos públicos — a pergunta que todo gestor de Reurb-S conhece.
A programação foi realizada em parceria com a Redes da Maré, o Instituto Manu, a Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), a Flip, a Casa da Arquitetura e o Insper, sob criação e realização do Arq.Futuro, do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper e da BEĩ Editora. Reportagem de Leandro Steiw.
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